sexta-feira, 7 de março de 2008

porque optam hoje as mulheres por parir em casa

Achei interessante esta noticia que saiu na revista Pais e Filhos em 2006, mas que só agora tive conhecimento e aqui deixo para conhecimento de todos, porque penso que se mantém actualizado e desejavel.
É mais antigo do que andar para a frente e até por isso o parto em casa, hoje em dia, assusta tanta gente. Com toda a segurança, tecnologia e infra-estrutura das maternidades, pode parecer maluquice. Mas quem já fez garante que a experiência é inigualável.
Em vez da sala de parto e o quarto do hospital, o conforto da própria casa. No lugar de médicos e enfermeiras de luvas e aventais, uma parteira. Nada de anestesia, cortes ou procedimentos invasivos, mas, sim, uma experiência mais natural do nascimento. O parto feito em casa, também chamado de domiciliar, causa estranheza, gera medo e parece ser coisa de gente maluca. Porém, essa foi a regra que vigorou durante muitas décadas, até meados dos anos 50, e cada vez mais tem conquistado a mulherada dos dias de hoje. E tem mais: é seguro, a probabilidade de infecção é menor e o vínculo que se estabelece com o bebê é muito maior.
“Hoje respiramos uma cultura hospitalar. Para quem mora nas grandes cidades e vive esta época, ter um parto em casa é inconcebível, é coisa de índio, de bicho”, relata a enfermeiraobstetra Vilma Nishi, mãe de Carolina e Luisa. De acordo com ela, as mulheres que se interessam pelo parto em casa têm a característica de serem mais ligadas à natureza e, de alguma forma, procuram realizar o desejo de vivenciar um processo mais natural. “Se engravidamos naturalmente, deve haver um jeito natural também de darmos à luz”, diz a parteira.
Na consulta inicial, as parteiras conhecem a história dos pais e seus desejos. O pré-natal continua sendo feito por um médico, que acompanha as condições de saúde da mãe e o desenvolvimento do bebê. Com a parteira, a mulher vive outro tipo de experiência, mais ligada às emoções e sensações. Muitas mulheres descrevem as consultas como uma verdadeira terapia. São conversas, massagens e períodos de reflexão.
As pessoas que defendem o parto em casa acreditam que tanto os pais quanto os bebês são beneficiados. Elas dizem que no hospital os médicos colocam a mãe em uma atitude passiva. “A mulher deve ser protagonista do parto. Em casa, ela tem liberdade para escolher a posição que quer ficar, a música que quer ouvir, o que quer comer. O profissional apenas presta uma assistência”, explica a enfermeira-obstetra Marília Largura, de 71 anos, mãe de Paulo, Victor e Sarita.
Marília diz que o primeiro contato do bebê com a equipe médica costuma ser marcado por tensão, nervosismo, excesso de manipulações e verificações. Já em casa, a mãe pode ficar com o filhote durante o tempo que quiser, dar banho, amamentá-lo e curtir os primeiros momentos na tranqüilidade do lar. Outro aspecto positivo, na visão da parteira, é que o parto domiciliar estreita a relação dos pais com as crianças. “Quanto mais partos eu assisto em casa e no hospital, mais eu me convenço de que o lugar mais natural para dar à luz, quando se está sadio, é na própria casa”, explica.
As parteiras rejeitam as afirmações de que o parto em casa traz riscos de infecção tanto para a mulher quanto para a criança. “Em casa a mulher está no seu hábitat, com suas próprias bactérias. As chances de infecções são infinitamente menores”, argumenta Vilma.
- Humanização:
Vilma, uma das parteiras mais conhecidas de São Paulo, construiu sua carreira trabalhando durante quase 30 anos em hospitais. Sua vida mudou em 2001, quando conheceu o trabalho de uma parteira alemã, adepta do parto humanizado. Desde então, Vilma dá assistência às mulheres que têm o sonho de dar à luz em sua própria casa, como fez Claudia d’Orey, mãe de Valentina, 1 ano e 4 meses.
Claudia conheceu a parteira quando estava no quinto mês de gravidez. Ela já havia procurado 15 médicos e não tinha se identificado com nenhum deles. “Me encantei com a Vilma logo na primeira consulta. Em vez dos exames tradicionais, ela fez massagens, conversou muito comigo, me deixou confiante”, descreve a musicista, que, até então, não sabia da possibilidade de dar à luz em casa.
Os quatro meses seguintes foram recheados de consultas, informações sobre o parto e o pós-parto, além das massagens. “Estabelecemos um vínculo muito forte nesse período”, conta Claudia. E, assim que sua bolsa estourou, por volta da 1 hora da madrugada, ela logo ligou para Vilma. A parteira seguiu para a sua casa conforme o combinado. Ao contrário do que muita gente imagina, a casa não precisa ser adaptada para que a mulher dê à luz. As parteiras costumam levar apenas um equipamento para acompanhar a freqüência cardíaca do bebê, tesoura para cortar o cordão umbilical, gaze e algodão. Toalhas e lençóis, por exemplo, não precisam ser esterilizados, já que nenhuma intervenção cirúrgica é feita.
Valentina nasceu perto das 10 horas da manhã. Durante o trabalho de parto, Vilma conversou com Claudia, fez massagens e, nos momentos de dor, passou segurança e tranqüilidade. Como acontece nos partos realizados em casa, a mãe não recebeu nenhum tipo de anestesia nem sofreu procedimentos invasivos. Durante o trabalho de parto, as parteiras indicam posições mais confortáveis, mas deixam a mãe à vontade para decidir onde e como quer ficar. “Nós transmitimos segurança e calma para que a mãe faça o seu papel”, acredita Vilma.
“A Vilma ficou invisível na hora do parto. Ela dizia que era um momento meu, muito íntimo. Entrei em outra sintonia. Uma hora, na sala, fiquei de cócoras e a cabeça do bebê saiu. Em seguida, me deitei no chão e a Valentina nasceu”, conta Claudia. Acompanhada por duas amigas, tudo correu muito bem, mas ela diz que sentiu muita, mas muita dor. E quanto aos preparativos, a coisa não saiu exatamente do jeito que imaginou. Ela havia comprado velas, incenso, escolhido músicas para o momento. “Tinha uma fantasia de como seria, mas na hora foi tudo mais visceral e a dor é muito grande”, conta.
Valentina nasceu e foi para o colo da mãe. A musicista ficou o tempo que quis com ela, ainda ligada pelo cordão umbilical. Só depois é que o bebê foi pesado e medido. Claudia amamentou a filha, e Vilma só foi embora quando a mãe já se sentia segura. Depois, voltou nas duas semanas seguintes, quase que diariamente. Com o tempo, as consultas foram se tornando mais distantes.
Hoje, Claudia enxerga seu parto como um ritual e afirma ter saído fortalecida da experiência. “Existe um mito em torno do parto, mas ele pode ser muito mais simples do que a gente imagina. E tem mais: é uma experiência única, inigualável. Não vou dizer que não senti dor, senti, e muita, mas a recompensa, a sensação depois, é boa demais”, conta.
- Barreiras:
Mas não são todas as mulheres que, mesmo após conhecer a parteira e se identificarem com o trabalho, têm o filho em casa. Muitas vezes elas sofrem críticas de familiares e amigos, e acabam sendo desestimuladas. “Na verdade, não culpo a família nem os amigos pelas desistências. O parto sempre foi e continua sendo um momento de insegurança para a mulher”, relata Marília, que nasceu de parto em casa e auxiliou sua filha a ter os três netos também na residência.
A enfermeira-obstetra conta que a sociedade é tão preconceituosa que há casos de vizinhos que chamam a polícia quando a mãe decide ter o filho em casa. “O mundo ficou muito neurótico”, afirma Marília. Quem critica o parto domiciliar afirma que, em caso de emergência, tanto a mãe quanto o bebê ficam desamparados. Mas, de acordo com Vilma, ao primeiro sinal de que algo pode dar errado, a mulher e o recém-nascido são levados rapidamente para um hospital próximo.
A jornalista Joanna Savaglia, mãe de Rodrigo e Marina, enfrentou de perto o preconceito. Quando estava grávida da Marina, foi atrás de informações sobre parto em casa. Ela conta que no parto do Rodrigo não estava bem-informada sobre as possibilidades e acabou fazendo no hospital.
No sétimo mês de gravidez, Joanna decidiu ter Marina em casa. “Meu marido era contra, mas estava fácil de convencê-lo.” A situação mudou quando a jornalista contou para colegas de trabalho que iria ter a filha na própria residência. “Elas me acharam maluca. Minha chefe telefonou para o meu marido e disse que era uma doideira o que eu queria fazer”, relata.
O pai ficou inseguro e, como Joanna queria tê-lo ao seu lado na hora do parto, optou pelo hospital. No entanto, procurou um meio-termo. O parto foi realizado em um hospital, mas com uma parteira. Mas o sonho de dar à luz em casa ainda não foi abandonado: “Quem sabe eu não tenho um terceiro filho?”, termina.

domingo, 23 de dezembro de 2007

Canto da Sereia

Todos se lembram de muitas das lendas que nos contavam como forma de acelerar o adormecimento e que povoam ainda hoje o nosso imaginário. Dessas, o canto da sereia, remetia-nos sobre forma de aviso para os perigos dos encantamentos. Quem nunca ouviu contar histórias de marinheiros que ao escutarem o canto da sereia se deixavam embalar pelo mesmo e assim eram conduzidos de forma hipnotizada para as profundezas dos oceanos.
Os leitores desta reflexão poderão colocar então a seguinte pergunta: o que tem o canto da sereia a ver com esta questão da obstetrícia e do parto em si? Como resposta pretende-se criar a alusão relativamente aos perigos escondidos pelos belos encantos que se ouvem sobre a facilidade, leveza, analgesia e descontracção do trabalho de parto e parto nos contextos actuais, mas fundamentalmente em relação às supostas seguranças oferecidas pelos profissionais relativamente às instituições, procedimentos e aparelhagens.
Hoje, a mulher, quando grávida, começa a ser seduzida por um discurso todo ele muito sustentado na agradabilidade acústica traduzida pela utilização dos “inho(s)” e “inha(s)”. Expressões como: “uma ajudinha”, “um jeitinho”, “um sorinho”, “uma piquinha com uma agulhinha”, “uma horinha pequenina”, etc, fazem parte do discurso standartizado na relação que se estabelece entre os profissionais e as grávidas desde o primeiro encontro. De forma quase natural e também necessária são omitidas algumas referências a desvantagens e riscos dos contextos abordados.
O encantamento que este tipo de discurso produz na mulher grávida, leva-a a aceitar sem discussões e inquietações os inúmeros procedimentos e intervenções praticados pelos profissionais das instituições que por sua vez as conduzem para uma viagem com possíveis consequências. Algumas de tal forma graves que marcam aquela mulher, ou bebé ou ambos para o resto da vida. O encantamento do canto, muito ao estilo do canto da sereia, transporta a mulher e respectiva família para procedimentos e intervenções cada vez mais agressivos que podem culminar com desfechos frustrantes quer para a mulher, que vê defraudada, em muitas das situações, o sonho do nascimento do seu filho num ambiente rodeado de paz e tranquilidade, quer para os profissionais, traduzidas pelas altas taxas de partos instrumentados através de ventosas e fórceps ou de partos cirúrgicos designados por cesarianas. Com partos altamente intervencionados, o canto da sereia continua a impregnar a consciência destas mulheres para a desculpabilização dos actos então praticados e das suas consequências sustentando-se na dramatização do parto como evento. Já nem me refiro à desconsideração que à posteriori estas mulheres sofrem através da frieza das relações institucionais.
Daí esta necessidade sentida, de estalar os dedos à mulher embalada pelo encantamento do canto e fazê-la despertar para a tomada de consciência das suas opções e aceitações no sentido de não se entregar de forma gratuita às múltiplas decisões tomadas por outros intervenientes que não os dela e da família para o nascimento daquela criança.
Com esta reflexão surge a pergunta: deve-se então acabar com as instituições obstétricas? A resposta obviamente é NÃO. E não porque elas devem coexistir em parceria com o desenvolvimento técnico-cientifico e estarem devidamente equipadas e apetrechadas através da tecnologia e profissionais capazes e competentes para darem a resposta efectiva, rápida e adequada para aquelas gravidezes que por um ou outro motivo fogem dos parâmetros considerados fisiológicos ou normais e assumem um perfil de patogenecidade ou doença. Neste âmbito, e só neste, devem contar com a destreza e competência técnica e profissional de todos os quantos ali trabalham e devem contar igualmente com o auxílio da tecnologia no sentido de avaliações contínuas das alterações surgidas. Assim, deve-se evitar a transformação daquilo que é normal em doença, evitar a visão centralizada nos órgãos humanos cada um por si e deve-se sim olhar para a pessoa como um todo, um ser biológico, holistico e carregado de profundas marcas sócio-culturais.
Como complemento de leitura deste apontamento, proponho a leitura das reflexões “epidural” e “indução” que também constam deste blogue.
Tenham por isso atenção e evitem o canto da sereia.

Estou de volta e Boas Festas

Quero mais uma vez pedir desculpas por esta ausência, motivada por compromissos que me impediram de vir colocar reflexões com a frequência que desejava.
Tentarei ser mais assiduo.
Gostava também desejar a todos quantos por aqui passassam e se dão à leitura destes apontamentos, um feliz natal e que 2008 seja um ano repleto de coisas boas.
Desejo igualmente gravidezes mais vivenciadas e livres de intervenções desnecessárias.

quinta-feira, 8 de novembro de 2007

As minhas desculpas mas estou de volta

Este espaço foi criado com o objectivo de se manter a continuidade informativa, de discussão e reflexão sobre a temática "alternativa ao parto hospitalar".
Contudo as variáveis existentes na vida de uma pessoa por vezes não lhe permite dispor do tempo como gostaria e como desejaria. E foi precisamente o que aconteceu. Durante este espaço de tempo em que não foram colocadas reflexões no blogue, deveu-se exactamente ao facto de que não tive reunidas as condições mínimas para que tal acontecesse.
Assim, tendo ultrapassado determinados contextos que inviabilizaram as minhas postagens, venho então, por um lado pedir desculpas a quem sentiu este espaço como referência e o viu entretanto vazio de conteúdo, e por outro, afirmar, então, que estou de regresso e que tenho desenhadas algumas reflexões que oportunamente virão a público.
Obrigado pela compreensão e até breve.

domingo, 26 de agosto de 2007

Induções, Epidural, Mac Donald, Pizza Hut e Coca-Cola

O titulo parece confuso e nada enquadrado com a temática deste blog, mas bem vistas as coisas existem muito mais semelhanças do que numa apreciação inicial pode aparecer.
A nossa sociedade ainda vem arrastada na nebulosa de um cometa que passou fundamentalmente nas décadas de 70, 80 e 90 e que lançava uma espécie de boa-nova associada ao desenvolvimento comercial e tecnológico. Décadas estas envolveram todos no facilitismo urbano e consumista. A disseminação de ideias e produtos associados a esta nova forma de estar foi de tal maneira galopante que as pessoas não pararam para reflectir, efectivamente, sobre as consequências de tais práticas. O marketing desenfreado associada à comercialização de determinados produtos pouco interesse demonstrou pela qualidade de saúde ou bem-estar, visaram apenas o lucro fácil das empresas associadas. E as pessoas, como que embaladas num canto de sereia embarcaram em práticas altamente prejudiciais da sua saúde e na sua qualidade de vida.
Hoje, fruto de correntes contra-maré e fruto de uma intervenção social mais consciente de organismos e grupos cívicos, tem havido um despertar de consciências, tímido ainda, é certo, mas tem havido, no sentido de se corrigirem estes comportamentos desajustados. Contributos como os filmes "Super size Me", "uma verdade inconveniente" e mais recentemente "11ª hour", tem sido, hoje, verdadeiras pedradas no charco e que não deixam ninguém indiferente. E à conta de contributos como estes, muitos e muitos comportamentos tem sido alterados, certo que ainda não são suficientes, mas a onda começa a formar.
Relativamente ao parto, também, e seguindo esta corrente social, sofreu, fundamentalmente durante as três décadas atrás referidas um marketing desenfreado, no sentido de se fazer acreditar nos benefícios da centralização do parto em unidades polivalentes mas descaracterizadas e insenssiveis às necessidades pessoais, sociais e culturais, acreditar ainda nos benefícios da droga e medicamento como que num estalar de dedo se conseguisse modificar os estares que um evento natural como o parto induz na mulher e também nos benefícios da máquina como ente supremo de controle e vigilância, tão ao jeito da ideia transmitida pelo filme "matrix".
Práticas que foram desenvolvidas em associação ao parto, sofrem por inerência os efeitos do marketing, mas potenciam as eventuais consequências a quem deles usufrui, refiro-me à epidural e à indução desnecessária. Como qualquer molho desenvolvido para aguçar o apetite de um hamburguer, também as práticas obstetricas referidas, se desenvolvem ao ritmo de um falso bem-estar associado ao parto. Assim, se em relação ao molho as consequências em relação às taxas de colesterol, problemas cardíacos e vasculares e obesidade só mais tarde é que se conhece a verdadeira dimensão da implicação na saúde, também com estas práticas só mais tarde, cada mulher, fica a saber das verdadeiras consequências, por exemplo as lacerações vaginais pela utilização de forceps e ventosas, queloides fruto de episiotomias extensas e profundas, fistulas vaginais, problemas vesicais e rectais entre outros.
Assim como acontece com a realidade ambiental, não estará também na altura de repensar as nossas práticas, comportamentos e atitudes, olhando para o facilitismo e consumismo de forma critica e conscienciosa? Não está na altura de se controlar esta entrega desresponsavel às leis do bisturi, tesoura e medicamento? Não está na altura de se parar e desenvolver uma consciencialização sobre práticas instituídas? Não está na altura de se ter uma consciência critica? Eu penso que sim e por isso esta tentativa de dar contributos para que tal aconteça.
Dá que pensar, não dá?

sábado, 28 de julho de 2007

Também preciso de descansar um pouco.

Tirei uns dias para descansar o que deu para pensar sobre novas reflexões. Prometo que o farei assim que entrar novamente no activo.
Até breve

terça-feira, 26 de junho de 2007

A Indução

O avanço da medicina com a descoberta de novos fármacos, desenvolvimento de novos instrumentos, máquinas e acessórios para actos médicos associado à padronização dos valores fisiológicos em limites cada vez mais convergentes se permite por um lado a monitorização do estar, não permite desta forma uma margem de manobra para que as competências humanas se possam manifestar de forma a compensar certos e determinados desequilíbrios. É óbvio que no combate ao desenvolvimento galopante de uma qualquer doença na pessoa, os medicamentos são hoje ferramentas essenciais no apoio e suporte a essa luta. A questão põe-se e com alguma pertinência, penso eu, o porquê da utilização abusiva desses fármacos no estado de saúde? Hoje, o ritmo alucinante que a vida tem, associado à impossibilidade de se dar tempo ao tempo, o recurso ao medicamento é feito de forma mecânica e irreflectida no sentido do alivio rápido de alguma sintomatologia, assim como é utilizada de forma a prevenir as sequelas inerente ao stress imposto pelos ritmos modernos.
Não posso deixar passar também aqui o facto de que actualmente a indústria farmacêutica ocupa o terceiro lugar na escala da economia mundial, logo a seguir à indústria alimentar e energética e também é sabido que há necessidades instituídas pelos diversos estratos sócio-profissionais para que esta máquina poderosa continue activa e imparável (a quantidade de farmácias para venda de medicamentos livres de receita médica criadas na primeira metade de 2007, foram de 500 ), pelo que a criação de um estado pessoal com permanente medo da doença e do micróbio para além do pânico que se instala é importante na estratégia do medicamento-dependência.
Esta reflexão aborda a indução do trabalho de parto.
Penso ser oportuno, em primeiro lugar, recordar que a Organização Mundial de Saúde refere que a gravidez normal pode ir até às 42 semanas, inclusive, e que deve haver um extremo cuidado na utilização de medicamentos que possam interferir com o desenvolvimento normal de uma gravidez.
Por definição, indução do trabalho de parto é a estimulação e manutenção de actividade uterina, traduzida por contracções regulares e contínuas, e que tem como objectivo expulsar o conteúdo uterino fruto de uma concepção.
O desenvolvimento dos actuais indutores do parto resultaram do conhecimento da fisiologia humana e traduz a necessidade para a sua utilização em casos de extrema necessidade, isto é, quando há risco efectivo para a mãe, feto ou para ambos no decurso daquela gravidez. Situações como pré-eclâmpsia grave, eclâmpsia, hellp, atraso de crescimento intra-uterino grave ou severo, oligoâmnios severo entre outras situações, justificam de facto a utilização desta terapêutica.
Estes medicamentos têm a capacidade de estabelecerem um padrão de actividade uterina designada por contracções e que tem por objectivo antecipar o parto. Os indutores medicamentosos do trabalho de parto e parto dividem-se em duas grandes categorias: os de acção cervical (que actuam directamente no colo uterino) e os de acção miometrial (que actuam directamente no músculo uterino).
Os primeiros designados por prostaglandinas, tem a função de "amadurecimento" do colo uterino e assim torná-lo facilmente dilatável (melhorar, assim, o índice de Bishop). Não têm uma interferência directa no processo do trabalho de parto, mas faz com que o colo então amadurecido, possa dilatar com facilidade através da utilização dos indutores ocitócicos. Como nota complementar ao que foi referido, acredita-se, hoje, que o processo natural de desencadeamento das contracções uterinas, entre outros factores, se deve á acção das prostaglandinas humanas, que existem fundamentalmente no líquido amniótico, directamente no colo uterino, só assim se consegue explicar porque é que, na maioria das vezes, quando uma mulher tem a ruptura da bolsa amniótica, começa, algum tempo depois, com contracções uterinas e assim se desencadeia, naturalmente, o trabalho de parto.
Os segundos, ocitócicos puros, são medicamentos de síntese laboratorial que tem composição idêntica à da ocitocina, hormona libertada pela hipófise anterior. Tem a respectiva acção junto das fibras musculares do miométrio (músculo uterino) e assim acelerar ou manter aquilo que se designa por contracções uterinas.
Como já foi dito, este procedimento foi desenvolvido para dar resposta ás situações criticas da gravidez, quer sejam elas maternas, fetais ou de ambos. Agora, o que se passa nos dias actuais é que se faz um uso abusivo destes medicamentos e para situações que em nada tem a ver com situações patológicas ou criticas. Muitos dos critérios usados hoje, centram-se fundamentalmente para respeitar o tempo ou presença do médico, porque a mulher é de longe, por causa da programação de datas festivas ou férias, para se "evitarem" complicações e para dar resposta às exigências das mulheres/família (provavelmente mal informadas). Um outro argumento amplamente utilizado é por causa da dismaturidade (o mesmo que bebé velho, isto é, com mais tempo de gestação do que as 42 semanas), para prevenir ou evitar os problemas inerentes a esta situação, contudo verificam-se hoje induções, sem causa aparente, às 39, 38 e até 37 semanas, logo muito longe das 42.
O problema da indução do trabalho de parto e parto vai muito além do simples desencadear e manter as contracções uterinas, arrasta consigo ou desenvolve um conjunto de complicações materno-fetais que podem terminar com consequências gravíssimas para ambos. Este procedimento não é inócuo. Entre outras coisas, não permite que a mulher desenvolva os mecanismos normais, fisiológicos e antagonistas da dor (as endorfinas), obriga a vigilância contínua e necessita a monitorização permanente através do registo cardiotocográfico para se controlarem os problemas associados com o uso destas drogas, por exemplo, a taquissistolia uterina (mais contracções por unidade de tempo do que as que normalmente se verifica), a hipertonia uterina (mais tempo de duração da contracção por unidade de tempo do que normalmente se verifica), a ruptura uterina (rompimento espontâneo da parede uterina por consequência das contracções fortes e contínuas) e o descolamento da placenta (por mecanismo idêntico ao da ruptura).
Num processo de indução de trabalho de parto são desencadeadas e mantidas dores brutais na mulher, muito acima do potencial normal e capacidade de resistência, criando-se assim, facilmente, uma situação de desespero que vai além do simples facto de ter contracções. Se este processo for combinado, isto é, a utilização dos dois medicamentos indutores, por fases, onde primeiramente são colocadas as prostaglandinas cervicais, para amadurecimento do colo, e depois os ocitócicos para as contracções uterinas, pode-se dizer que estamos perante um processo altamente agressivo e desumano para o estar daquela díade, mãe/feto. Daqui se percebe o porquê da mulher suplicar para que seja feito o bloqueio analgésico através da epidural, no fundo, é já uma "necessidade" daquela mulher que deve ser satisfeita. Consequentemente, a epidural, como processo bloqueador, interfere nas capacidades maternas o que pode levar, assim, a outras complicações extremamente graves que já foram referidas em reflexão anterior.
Voltando ainda às consequências da indução, verifica-se na maior parte das vezes aquilo que é designado por inversão de polaridade. Isto é, num processo de trabalho de parto e parto natural a frequência das contracções situam-se em intervalos mais ou menos regulares de 5 minutos, com a duração da própria contracção a não ultrapassar, em média, o minuto de duração, ora, na indução verifica-se uma alteração deste padrão, com contracções mais prolongadas, podendo ultrapassar o minuto e meio de duração, enquanto que se verifica menor espaço de tempo entre as respectivas contracções (observam-se com frequência uma contracção em cada 2 minutos), o que dá uma imagem gráfica de inversão do traçado. Logo, se com menos tempo disponível para que se processe a recuperação útero-fetal, associado às contracções mais duradouras, podemos então imaginar o quanto este processo por si só é violento e agressivo. Se para a mãe, quando castrada nas suas competências, através do bloqueio epidural, passa a suportar esta fase com alguma facilidade, porque não tem o estimulo sensorial de dor (não tiraram a dor, bloquearam a transmissão desse mesmo estímulo, e outros, por inerência, o que dá a percepção de ausência de dor), já o feto é vítima de uma agressividade física sem limites. Se não vejamos, pelo facto dos intervalos de tempo entre contracções ser manifestamente insuficiente para recuperar, é-lhe também suprimido ou diminuída a quantidade de oxigénio e nutrientes necessários para as suas funções vitais (um útero contraído não permite que se efectue as trocas gasosas e nutritivas ao nível da placenta na exacta medida que cada contracção estrangula por um lado os vasos que fazem chegar o sangue materno e por outro os vasos que levam o sangue ao feto), pelo que é facilmente levado ao completo esgotamento de todas as suas reservas, o que o faz entrar na fase designada por sofrimento fetal. Por aqui se consegue perceber da necessidade imperiosa de haver sempre um neonatologista por perto, porque um bebé esgotado não consegue e nem é capaz de fazer uma boa adaptação à vida extra-uterina o que exige por isso, muitas vezes, a execução das manobras de reanimação neonatal. Se a isto se associar a dor que possa ter, devido à colocação de uns fórceps, ou ventosa ou até de ambos, não temos, assim, a capacidade de imaginar o sofrimento que este delicado ser é vítima quando da saída do ventre de sua mãe.
Fazendo uma ligação a outra reflexão anterior, a epidural, assim se explica melhor e de forma fácil os 70% de partos distócicos das nossas maternidades (ventosas, fórceps e cesarianas), o que não se consegue explicar é o sofrimento atroz que cada mulher passa consequência das contracções violentas que se lhe impõem, primeiro pela acção das prostaglandinas e depois através das perfusões ocitócicas (soro com ocitocina) e também não se consegue explicar, porque não está quantificado ainda, o nível de sofrimento que o feto passa, assim como as consequências a curto, médio e longo prazo quer para o bebé pela instrumentalização do parto, quer para a mãe como consequência igualmente da instrumentalização do parto, da episiotomia efectuada ou da ferida cirúrgica abdominal fruto de uma cesariana.
Assim a consequência de um acto que muitas vezes tem como argumentação "o dar uma ajudinha para o bebé nascer" ou "pronto já chega de gravidez", pode-se transformar por um lado num dos piores momentos e vivências para a mulher que deseja ter uma experiência maravilhosa com o nascimento do seu filho e por outro, para o bebé, é vitima de uma agressividade desmesurada. Podemos assim compreender a natureza das verdadeiras histórias de terror e de pesadelo relatadas por inúmeras mulheres quando revivem mentalmente os seus partos.
Hoje conhecem-se formas naturais de induzir um trabalho de parto e parto, sem recurso a drogas violentas, estão descritos mecanismos pelos quais se pode desencadear este processo, porque não, então, utilizá-los?
O parto humanizado tem como base o não recurso a agentes terapêuticos como coadjuvantes do processo de nascimento, assim como respeita a fisiologia e o tempo de nascimento, por isso se explicam as tão baixas taxas de problemas materno/neonatais a quem opta por esta alternativa.
Num parto em casa é proibido o uso destes agentes em qualquer fase do trabalho de parto e parto, excepto em caso de hemorragias severas pós-parto. Só que aqui, não funcionam como indutores, mas sim como estimulantes do tónus uterino, em úteros com dificuldade em se contrairem, evitando, assim, as hemorragias puerperais.
Dá que pensar não dá?