quarta-feira, 9 de maio de 2007

Realmente dá mesmo que pensar

Hoje tive a oportunidade de ver uma reportagem efectuada por um canal de televisão e que se intitulava "condenados à nascença".
Dos quatro casos apresentados, só foi dada a versão dos "lesados", isto é, das famílias que sofreram com o desfecho da situação, contudo verificamos que há coisas em comum em todos eles:
Os partos aconteceram no hospital e sem que nada fizesse antever com finais dolorosos e de tristeza profunda para as famílias envolvidas. Verifiquei que em nenhum dos casos relatados se configurava com situações enquadradas na gravidez e parto de risco (exceptuando eventualmente um dos casos).
Então porque é que aconteceram? Não sei. Mas há variáveis que podem ser consideradas fruto da obstetrícia actual e que já foram alvo de algumas reflexões anteriores neste espaço.
Entre estas variáveis verificámos que em todas as situações (especialmente as três primeiras) se deu a entender que foram trabalhos de parto induzidos e parece (e esta é uma dedução exclusivamente minha) que pelo menos em três deles deve ter havido analgesia por bloqueio epidural (esta dedução vem dos relatos feitos em que as mulheres referem ter sido culpabilizadas por não terem colaborado no parto, isto é, que não tinham feito as forças expulsivas adequadas no período expulsivo. Este mecanismo está na maior parte das vezes associado à analgesia por bloqueio epidural e ficou descrito o porquê na reflexão anterior. A analgesia epidural é actualmente uma prática comum dos nossos hospitais, muito por culpa da continua desinformação que se mantém nas mulheres e daí ser responsável em grande parte doas casos dos 60 a 70% de partos distócicos, ventosa, forceps e cesariana).
Vejamos então um pouco mais em pormenor os relatos.
A primeira situação. Uma indução às 40 semanas, num dia em que a médica estava de serviço. Às 20 horas e 30 minutos o bebé, com possível esgotamento das reservas energéticas, consequência provável de um trabalho de parto acelerado (deduzo eu) pela utilização da ocitocina, entra em falência generalizada e de seguida em sofrimento. Tentaram estimular as forças expulsivas para acelerar o parto e foi por esta altura que a senhora refere, que ouviu comentários que a culpabilizam por não ter colaborado mais activamente no parto (o que me leva a deduzir deter havido bloqueio epidural). A médica só chega depois das 21 horas (1/2 hora após o inicio dos episódios de sofrimento fetal, porque estava a jantar em casa, fora do local de trabalho apesar de estar de serviço) e então faz um forceps e a criança (Gonçalo) fica com lesões permanentes e irreversíveis, por consequência de anóxia cerebral prolongada.
Na segunda situação não ficou bem esclarecido o motivo pelo qual é que a senhora foi mandada para o hospital, sabemos que foi por indicação da médica de família que durante a vigilância da gravidez tinha previsto ou deduzido da necessidade de uma cesariana. Através do relato, somos levados a crer que houve uma indução oral (tomou um comprimido e foi mandada para casa). Após algumas contracções em casa, ocorre a ruptura da bolsa amniótica, o que a leva novamente ao hospital algum tempo mais tarde. Dos factos relatados relativamente ao parto propriamente dito, a senhora referiu-nos que foram aplicadas por diversas vezes as mãos, que não resultou, depois a ventosa, que também não resultou, depois o forceps, que também não resultou (deduzo eu por a apresentação fetal se encontrar em patamares muito altos. Sabe-se que a aplicação de instrumentos em níveis pélvicos altos, na maioria das vezes, só é possível em determinadas condições de analgesia) e acabou numa cesariana. Resultaram destes procedimentos, a morte do filho, múltiplas lesões vaginais por traumatismos obstétricos e consequente infecção vaginal prolongada. Diagnóstico, asfixia grave com traumatismo obstétrico.
A terceira situação, num hospital, um trabalho de parto arrastado (indução sem haver condições cervicais para isso?), com falência fetal (?), do que resultou a aplicação de forceps e esmagamento craneo-encefálico da criança, hemorragia cerebral e consequente morte. Segundo o relato, esta situação decorreu 12 horas após a ruptura da bolsa amniótica (o que não é muito, em termos obstétricos) e como consequência de muitas manobras obstétricas para extrair o bebé, que não resultaram, e também da pouca colaboração materna durante o período expulsivo (epidural?), até que um médico (o único a responder actualmente por homicídio por negligência), decide fazer um forceps alto (permitido pelo bloqueio epidural?), do que resultou o esmagamento craniano.
A última situação, esta sim, há uma componente patológica diagnosticada posteriormente de sepsis, daí um desvio da normalidade da gravidez e parto e de que resultou, segundo o testemunho do pai, num diagnóstico errado, terapêutica errada e a consequente morte da mãe e da criança. Este episódio foge claramente ao prototipo de prática obstétrica interventiva e tecnocrática no trabalho de parto e parto. Mas mesmo assim com um desfecho lamentável.
Através desta reportagem há vários denominadores comuns, todos são hospitalares, excessivo controle e decisões exclusivamente médicas, altamente interventivos e com graves desfechos. Fica no ar uma outra questão: e aquelas mulheres que sofreram e sofrem ainda com as consequências das intervenções, manipulações e mutilações resultantes do intervencionismo no parto? Quantas mulheres se calaram e com resultados penosos para a sua pessoa? Quanta sofrem ainda hoje de morbilidade pós-parto?
Tenho vindo, através de reflexões, alertar para alguns tipos de consequências maternas e/ou fetais resultantes de práticas médicas obstétricas que desrespeitam a fisiologia, o tempo e o desenvolvimento de um trabalho de parto e parto. A experiência acumulada por vários anos me tem vindo a demonstrar isto claramente. Daí o meu sentir da necessidade de continuar este combate contra a excessivo intervencionismo no nascimento.
Dá que pensar, não dá?

10 comentários:

Lídia disse...

Obrigada por esta reflexão.
Vai ao encontro das conclusões que tirei quando vi a reportagem. Tomara que mais mulheres conseguissem fazer este tipo de análise mas infelizmente em algumas com quem troquei impressões ficou a ideia que se se tivesse partido logo para cesariana os desfechos não teriam sido maus.

barbarayu disse...

eu acho que a lídia tem razão... infelizmente há muita desinformação nesse sentido...

um abraço e continuação de um excelente trabalho!

Daniela disse...

Obrigada pela atenção que prestou à
minha reportagem.
Limitei-me a apresentar factos e, pelo que acabei de ler, parece-me que consegui atingir o meu objectivo.
São casos lamentáveis, mas são apenas alguns de muitos. Infelizmente.

Martocas disse...
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Martocas disse...

Olá,

Acabo de conhecer este excelente blog. Parece-me uma optima ideia e um excelente comentário.
Concordo também com a questão da cesariana... o que me tem dito, é, lamentavelmente o mesmo: que se fosse cesariana seria seguro. Inclusive, uma amiga que está para parir, ficou muito inclinada para a cesariana...
Era bom que apresentassem paralelamente um doc. sobre cesarianas e suas complicações :-) ... que tivessesmos mais dados sobre o número de cesarianas problemáticas. Todos (a começar por muitos médicos) nos apresentam uma tecnica cirurgica como a panaceia o qual não é de todo verdade.

Obrigado por lançar este debate :-)
Martocas

Felipe B disse...
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Felipe B disse...

Olá,

como pai de duas amadas meninas -a primeira, nascida de casárea em 2001; a segunda, em um belo parto domiciliar, um ano atrás- fico profundamente recompensado ao saber que a reflexão, pelo menos além-mar, chega à grade midia.

Espero que, um dia, possamos fazer o mesmo no Brasil.

Abraços,
Felipe B

Cristina Silva disse...

Concordo com a Lídia. infelizmente há muitas mulheres muito desinformadas em relação ao parto.
A maior parte desconhece até haver recomendações da OMS para o atendimento ao parto normal...
É triste triste o profundo desrespeito por alguns casais por parte dos técnicos. Fiquei profundamente chocada com o do casal a quem lhes foi entregue os restos do filho num saco de plástico, revoltante!
Continuação do excelente trabalho.
Um abraço, Cristina Silva

Rosa Maria disse...
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Rosa Maria disse...

Para re-ver a reportagem "Condenados à nascença", transmitido pela RTP no passado dia 09 de Maio às 21 horas:

- http://multimedia.rtp.pt
- "Videos"
- Pesquisa: Em Reportagem
- Escolher um dos formatos de video na linha com a data 2007-05-09